Mário Lange de S. Thiago
De outra feita, escrevendo sobre o significado do dia 18 de abril para os espíritas, lembrei a circunstância da reunião promovida pelo Prof. Rivail, à noite, um sábado de primavera, em seu apartamento da Rue des Martyres, nº 8, quando do lançamento de O Livro dos Espíritos, em Paris. Era o ano de 1857. Sobre esse rendez-vous não há registros, senão uma história romanceada sob o título “O Livro dos Espíritos e sua tradição histórica e lendária”, escrita por Canuto de Abreu, ele mesmo detentor de espaço no panthéon dos pioneiros do Espiritismo no Brasil.

Os primeiros convidados a chegar seriam os integrantes da família Baudin, entre eles as meninas Julie, Caroline e Ruth que, embora tenham servido como médiuns para a recepção das instruções dos Espíritos, afirmavam não terem sido elas que o compuseram, mas os Guias, o Professor Rivail e o ROC. ROC “era o apelido do lápis de pedra com que os Espíritos rabiscavam, diretamente, as respostas numa ardósia comum”. Desde logo, ter-se-ia dado um diálogo entre Émile-Charles Baudin e o Prof. Rivail, que lhe perguntou a opinião sobre o título do livro. Baudin respondeu positivamente, mas expressou surpresa com a mudança, porquanto deveria chamar-se “Religião dos Espíritos”. Nesse diálogo imaginário, o Prof Rivail teria redarguido: “Mudei de ideia. A censura poderia implicar-se com esse título. Por outro lado, os Guias me haviam dito ser o livro apenas o primeiro capítulo da Religião Espírita. O título primitivo seria, pois, impróprio”.
Posteriormente, em julho de 1859, Allan Kardec, pseudônimo adotado pelo Prof. Rivail, publicou um livro esclarecedor – Qu’est-ce que le Spiritisme?, onde proclama ser o Espiritismo “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”. Nada mais preciso. Porém, tratava-se, igualmente, de uma invasão temática, posto que a vida após a morte é questão religiosa. Não é por outro motivo que, nos seus comentários ao Evangelho, em livro específico indispensável, Alla Kardec se reporta à “Aliança da Ciência e da Religião”, no item 8, do Capítulo I (ESE). Entretanto, advertiu de seu modo de ver que “Cada um pode formar de suas opiniões uma religião e interpretar à vontade as religiões conhecidas; mas daí a constituir nova Igreja, a distância é grande”.
Tomando pé dessa dicotomia – religião/igreja, mais adiante, em seu celebrado discurso de 1868, o mestre lionês contempla o paradoxo aparente, posto que, para si, “No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, …” mas se opõe à utilização dessa “palavra”, que, na opinião geral, é inseparável do conceito de culto, despertando “exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem”.

Então é muito simples a solução dessa controvérsia que não tem a dimensão teórica toda que se lhe empresta. Nenhum espírita desconhece a importância do canal mediúnico na formação do seu ideário. Em dois sentidos se apresenta essa percepção. O primeiro diz respeito às mensagens que os Espíritos superiores, descomprometidos com os aguilhões materiais e sociais nos trazem, e às atenções assistenciais que se pode oferecer aos Espíritos que necessitem de apoio. Mas, o segundo sentido tem sido crucial para o estabelecimento de premissas, evidências e controles da veracidade dessas manifestações e da existência de outra dimensão onde os Espíritos convivem em seus corpos perispíriticos. Se o primeiro sentido serve indiscriminadamente a todos, já o outro, envolvendo miríade de informações e dados especializados, observações, experimentações, formulação de hipóteses nas correlações espírito/matéria, só pode ser bem compreendido e dinamizado por quem detenha o conhecimento e preparo exigidos. Mas, as consequências epistemológicas e existenciais (axiológicas) desse alargamento dos horizontes e da realidade da vida atingem e interessam a todos, enquanto há os que, tomando plena e máxima consciência da sua condição espiritual, resolvem entreter-se também com o divino e o próprio papel na obra da criação. Consoante dispõe o codificador, na Conclusão de O Livro dos Espíritos, item VII, …”para os que compreendem o Espiritismo filosófico… O primeiro efeito, e o mais geral, consiste em desenvolver o sentimento religioso naquele que, mesmo não sendo materialista, é indiferente às questões espirituais”.
Sendo assim, também concluo: o Espiritismo é ciência para alguns, filosofia para todos e religião para cada um.
* Distrovérsia: Termo criado pelo autor.

