
DIALÓGOS e IDÉIAS
ENTREVISTAS CONCEDIDAS POR CHICO XAVIER.
“Exemplo vivo de Espírita Evangélico” no dizer do professor Herculano Pires.
Nascimento: 02.04.1910 e Falecimento: 30.06.2002
LIVRO: ENTREVISTAS – FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER / EMMANUEL – 1971 – 1ª EDIÇÃO – IDE
ORGANIZAÇÃO e NOTAS: SALVADOR GENTILE, HERCIO MARCOS CINTRA ARANTES e ELIAS BARBOSA.
Item 12 – FRATERNIDADE REAL – Página 26.
PERGUNTA: Chico Xavier, tem algum fato em sua experiência mediúnica que o tenha obrigado a pensar mais seriamente na fraternidade humana?
RESPOSTA: Todas as mensagens que temos recebido durante o tempo de nossas singelas atividades na seara mediúnica, nos impelem a compreendermos a necessidade de esforço para que cheguemos à fraternidade, sentida, mas respeitando o tempo dos telespectadores, e pedimos sua permissão, lembraremos aqui um fato, de muita significação, que ocorreu em minha vida. Creio, não deveria levantar qualquer lance autobiográfico, mas é preciso que recorra a um deles para explicar a lição que recebi.
Em 1939, desencarnou-se um de meus irmãos, José Cândido Xavier, deixando sob nossa responsabilidade, a viúva com dois filhinhos. A viúva de meu irmão era uma moça extraordinária, humilde e bondosa. Em 1941, ela foi acometida de grave distúrbio mental.
O assunto é longo e vou resumir para que não venhamos a tomar muito tempo. Depois de alguns meses em que a viúva de meu irmão que sempre consideramos nossa irmã muito do coração estava conosco em casa, doente, o caso agravou-se requerendo internação numa casa de saúde mental, o que foi providenciado em Belo Horizonte, com o auxílio de médicos amigos, da cidade de meu nascimento Pedro Leopoldo perto da capital de Minas Gerais. Acompanhei minha cunhada, a quem sempre dispensei muita consideração e carinho e, ao interná-la na casa de saúde mental, observei o estado de muitos enfermos que ali estavam, naturalmente, abrigados, com muita segurança, proteção e assistência.
Voltei para casa com o coração muito abatido. Era noite, o segundo filho de minha cunhada, com meu irmão, era uma criança paralítica. A criança chorava e eu me enterneci muito ao ver o pequenino sem a presença materna. Sentei-me e comecei a orar. As lágrimas vieram me aos olhos, ao lembrar meu irmão desencarnado muito moço ainda, a viúva tão cedo também, numa prova tão difícil!… Na incapacidade de dar a ela a assistência precisa, senti que minha dor era muito grande!…
Achegou-se, então a mim, o espírito de nosso amigo Emmanuel. Perguntou-me porque chorava. Contei-lhe que, naquela hora eu me enternecia muito por ver minha cunhada numa casa de saúde mental em condições assim precárias.
Não, disse Emmanuel, você está chorando por seu orgulho ferido; você, aqui, tem sido instrumento para cura de alguns casos de obsessão, para a melhoria de muitos desequilibrados. Quando aprouve ao Senhor, que a provação viesse debaixo de seu teto, você está com o coração amargurado, ferido, porque foi obrigado a recorrer à assistência médica, o que, aliás, é muito natural. Uma casa de saúde mental, um sanatório, um hospício, é uma casa de Deus. Você não deve ficar assim.
Disse-lhe, então, que concordava e pedi-lhe como Espírito Benfeitor, que trouxesse a minha cunhada de volta ao lar, pois a criança, o seu segundo filho era paralítico e aquele choro atestava a falta que o pequenino sentia dela. Ela voltaria afirmou-me. Mas aquele “Ela voltaria” poderia ser depois de muito tempo, o que de fato aconteceu, só depois de dois anos. Eu queria que ela voltasse depressa disse a ele impaciente.
Imaginemos a Terra respondeu-me Emmanuel, como sendo o Palácio da Justiça, e ela como sendo uma pessoa incursa em determinada sentença da justiça. Eu sou seu advogado e você é serventuário no Palácio da Justiça. Nós estamos aqui para rasgar ou cumprir o processo?… Para cumprir respondi.
Continuei, porém, chorando por observar o assunto ser mais grave do que pensava.
Por que você continua chorando disse Emmanuel?…
Querendo me agastar, muito indevidamente, porque a minha atitude era desrespeitosa, diante de um Amigo Espiritual tão grande e tão generoso, disse-lhe: Estou chorando porque, afinal de contas, o Senhor precisa saber que ela é minha irmã!…
Eu me admiro muito respondeu-me, porque antes dela, você tinha lá dentro naquela casa, trezentas irmãs e nunca vi você ir lá chorar por nenhuma. A dor Xavier não é maior que a dor Almeida, do que a dor Pires, do que a dor Soares, a dor de toda a família que tem um doente.
Se você quer mesmo seguir a doutrina que professa, ao invés de chorar por sua cunhada, tome o seu lugar ao lado da criança que está doente, precisando de calor humano. Substitua nossa irmã, exercendo assim a fraternidade.
Foi uma lição que não posso esquecer!…
Entrevista concedida por Chico Xavier, ao repórter Saulo Ramos da TV Tupi, canal 4 de São Paulo, em 06 de maio de 1968, gravada na Comunhão Espírita Cristã (CEC) em Uberaba (MG).
